quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sesta

Dormir
A esta hora da tarde
É o mesmo que perguntar
Sobre a inutilidade do corpo
Visto que os sonhos
Não são mais eles mesmos
E adivinham os mais secretos desejos
Tudo desmancha-se na obrigatoriedade
Do transeunte nos postes,
Nos mastros dos navios,
Nos picos mais íngremes dos montes
No canto nunca revelado dos lábios
O canto úmido da boca.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Despedida

O sol anda em círculos, em olhos miudinhos
Duas janelas exatas
Onde a vida corre distante, distante
Que mais parece um menino brincando na praia
De juntar conchinhas
Ao nascente devagarinho...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Justo

Nada é mais recompensador que teu beijo, mais justo.
Puro artífice do que espera mais do que horas de um dia inteiro.
O dia não abraça, nem aperta, nem morde.
A dor da graça não tem sentido.
São olhos pequenos os olhos de noite
Porque as estrelas da noite se justificam nos teus olhos
São olhos comuns, pequenos como os meus fechados
Na hora do dia recompensador, fração do segundo teu beijo e mais justo.

Constatação

Sempre que olhar pra ti
De qualquer janela e de qualquer andar
Devo me perguntar, solenemente:
Que prazeres a superfície pode trazer?
Lá no fundo, depois das raízes e fósseis,
Diamantes.
E mais adiante, se cavarmos mais,
O magma encantado.
E depois de anos luz de profundidade – o mais denso de uma alma
Talvez uma semente se perguntando
O porquê de uma flor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Síncope

Sinto que necessito de mais palavras
Síntese do objeto e do desejo
Não vês os dias órfãos e presos de meus pensamentos?
Velha vida recém descoberta
tudo em órbita da ideia
que em agosto
nasce, e morre.
Às vezes a angústia vem
No trato com as palavras – todas inúteis
É preciso me convencer
Que um dia só é muito pouco
Pra rever toda a mansidão da rebeldia.