segunda-feira, 23 de abril de 2012

Náutico

Não vou me barbear porque
Parto daqui a pouco, atrasado.
Nem vou dizer-te por carta
Que fui ou sou mais ou menos infeliz
Como esperas que eu faça.
Mal tenho tempo pra amar
O azul infinito que se descobre ao som de apitos, gaivotas.

Só me resta tempo pra ver o mar.
Contar umas ondas
Ver as conchas brancas
Como de costume
Sorrir para os caranguejos esbranquiçados
Que correm atrapalhados pela areia.

Tenho tempo de dizer por escrito
Na maresia:
“Um dia te amarei tanto,
Mas tanto,
Que afogarei inteiro este oceano
Em meu peito.”

Só tenho tempo pra mais um poema
E eis que ele demora toda a maré
Pra ficar intimamente pronto
Como um cais sempre em construção.

Deito teu perfil imaginado em meu colo,
com meus dedos cuidadosos, queimados pelo poente.
E não tenho tempo pra mais nada – ver-te dormindo:
Mansidão do infinito numa única e atrasada onda
De espuma.

Tardio


Não preciso de mais nada pra desejar-te impossível
Na janela fechada de teus possíveis olhos
desejo-te indisponível.

 Na tua sombra
Ora orvalho, ora flor
Que há o medo do nunca mais
De não precisar mais de tanto mar
Nem de morrer de tanto pouco amor.