terça-feira, 9 de outubro de 2007

Canção da Guerra Não Travada

Havia antes um jardim
E nele - não plantadas - pousavam as flores,
Caladas, docemente.
E o Silêncio tenso,
Repousava por entre as flores
Medo de não ser percebido
Havia flores frágeis borboletas


Havia antes, na terra cintilante
O cheiro sólido de coisas fecundas,
Guardadas cheias de útero
Sorrindo a vida vindoura
Havia ouro de todas as cores enterrado

Havia uma cama onde todo o sono brincava com seu cão
Lia seu jornal e aproveitava o que seria domingo
Tudo branco
Novo
E outras coisas boas de tão velhas não virão mais.


Havia sonhos-meninos, dormindo entre os lençóis
E pela janela podíamos ver o sol se esconder
Derramando laranjas no jardim perfeito
Espantando as flores, como borboletas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Proposta

Te proponho,
com o ar sóbrio
dos maduros
e a impaciência dos adolescentes
que sejamos um,
aquele um tanto
de dois
em muitos, em tantos dias

(Casamento é coisa séria,
meu amor,
é ter que perdoar o outro ser e ser, e ser - dia após dia
dia de conhecer
ao dormir e acordar)

Te proponho
sermos práticos
e maravilhados
em sermos nós
ricos
rindo
de tantos sonhos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Confissão

Confissão


Sei que tenho defeitos
E não esqueço deles
Apesar de esquecer quase de tudo nessa vida
Menos de meu amor por ti,
Este é selvagem e indelével
Diz nunca ao esquecimento

Mas também sou descansado
Espero algumas vezes na maioria acontecer
Mas não há mal melhor
Do que descansar em ti
E esperar que tuas nuvens embalem meu sono

Tenho muitos defeitos
Mas te amo voraz,
Como a fome dos loucos
E serenamente,
Como a prece dos santos

Te amo cheio de defeitos –
Às vezes não presto atenção -
Mas se olho pra ti
Quase que vejo o futuro:

Eu e tu, mãos dadas e calados
Diante da janela aberta
Olhos descansados
E nos perguntando se amanhã vai chover.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Calendário

Será que foi novembro, dezembro
Apanho a pequena flor e lhe dou um beijo...
São tantas estas lembranças, de nada,
Não lembro.

Será que fui eu primeiro?
Vejo sete castigos de espera
Depois te beijo

Será que foi novembro, dezembro
Barba feita, e atrasado
Parto para ver-te no Natal

Tinha feito muitas malas
Ia viajar pra longe
Mas fiquei por aqui mesmo
Depois te beijo

Será que foi novembro, dezembro
Tantas luas se passaram,
Tantos medos
Escorreram-me por entre os dedos

Nem eu mesmo sei
Se te olho,
E te prendo novembro, dezembro
Ou se fecho os olhos e te beijo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Infinito

Sabem de mim sete estrelas
De várias naturezas:
As que conhecem o céu claro
E o negror da noite,
E as que se movem no pacífico e no atlântico
entre corais de sal

E também aquelas primeiras,
Antes da formação do mundo,
Que observavam o fogo – a primeira centelha
As primeiras caravelas partirem de casa
Rumo ao Continente Desconhecido.

Sete estrelas de azul e ar
Que antes faziam os rumos
O céu a cartografia.

Dizem do sul e do norte,
E também falam do meu amor
Falam que eu amo infinito e assim sou:
Ser de estrelas antigas como o mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Canção do Princípio

Hoje teremos sorte, pois ainda estaremos juntos,
Concordaremos em dizer Não e Sim na hora exatas:
Seremos nós e um do outro.
Teremos tempo: viver é respirar pele e beijo.

Hoje não teremos medo,
Dormiremos nós nos jardins um do outro.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Insônia

Se pensas que me enganas
com um pote de mel
e cestas cheias de girassóis,
se engana tu, doce língua entre os dentes.

sei de teus planos
e quais deles puseste em prática,
na lua ou depois que me juraste eterno amor.

Eu ví e ouvi coisas que a noite me disse.
só não tive coragem de abrir a janela,
mas se brincar ainda hoje vejo tu me explicares
o inexplicável.

enquanto isso durmo em teu colo
e aceito o mel que trazes
e talvez, os girassóis.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Pétalas

Tuas mãos maravilhosas
Se abrem como flores
No ápice da primavera –
Teus dedos, pétalas.

Doce perfume intenso
Tuas digitais coloridas
Num campo – flor de
[meu corpo...

Desabrocho todos os meus sentidos
Sou todo pólen e flor –
Desejo daquele que colhe rosas
E as espalha pela vida afora.

Solidão

Quem de nós,
Náufragos de nós mesmos
Não esquecemos nossa nau
Nos portos perdidos da vida...

De braços ancorados no futuro,
Navegamos tendo o coração à frente:
O amor é que nos enxerga,
E a ele enxergamos.

Depois, cansados de tudo,
Ancoramos nosso conturbado
[ coração
nas águas escuras do tempo.

Que sabe um dia,
Livre dos rochedos
Cortantes do outro,
Feridos de inúmeras tempestades,
Ganharemos asas.
E voaremos tendo nuvens como
[ obstáculos,
e o mar azul,
visto do alto,
parecerá um infinito
céu azul –

repetição da visão de cima
confirmação da paz de dentro.

Regra nº 03

Namorar, indicativo da família amar,
Ou prelúdio deste – algo que não se conjuga,
Apenas se ama, até não se sabe quando –
Mistério é o tempo futuro.

Das classes gramaticais de minha cama,
Reina absoluto, verbo irregular
De todas as minhas vontades:
Se eu pudesse, amaria pra sempre
Ou nunca teria amado.

Namorar, coletivo de várias horas, meses, anos
De abraços e beijos e cantigas
E mais palavras do mesmo sentido,
Outros verbos de forças desconhecidas que me impele ao outro.

Se pesa no teu colo, mais do que minha cabeça em repouso,
Pega outra deste dicionário, que é meu coração:
Revira os fonemas de cabeça pra baixo,
Cria tua própria etimologia
A ciência vaga de aprender a cada beijo
O conceito primitivo dos braços dados
Das mãos enlaçadas desta manhã de janeiro,
Verbo infinitivo e infinito de todos os meus dias.

Regra nº 02

Que nome pode ser chamado,
O ser quase amado,
Pois de tanto querer, se perde
Neste querer e no medo?

Há muitos nomes para ser chamado:
"Amor Meu", digo em segredo.
Que nome chamo nestes olhos e dentro deles,
E outros, que repousam sem sossego.

E se rebelam, escapando pela boca,
E depois se calam, escorrendo pelos dedos?

É de todos os nomes este sentido
E o guardo em zelo
Nos olhos que olham, chamando de Amor,
Na boca que não chama, mas que o chama, neste beijo.

Regra nº 01

Existe regra pra beijar na boca?
Do rubro desejo, do toque lábio?
Do úmido calor, língua e saliva?
Do fogo, cama e depois a flor?

Pois de boca e néctar sabem as borboletas -Tudo é flor e beijo.
É dos amantes a regra, porém, amar.
Assim como das borboletas, depois do beijo, voar...