quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ensaio

Em cima do muro, uma velha coruja.
Nem sei por que saio
Quase nu
Nesta noite escura
Pra quê, pra quê,
Se a vida é tão dura?

A noite cresce, quase sem esperança
Pra quê musica, pra quê,
Se não há motivo nem dança?
Os olhos insistem, presos na alma da infância
Talvez tenha gosto de saudade,
Talvez tenham pés descalços,
Igual criança...
No balanço onde a vida pende
Ora descrente,
Ora sorri,
E balança.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Presságio

São flores, são flores, são flores
O desenho de outras vidas
Nas nervuras quietas de tua boca,
Não era jardim o antigo ontem, não era não
O antigo amigo, o velho amante
Não era?

E se não fosse?
E se não era, no muro
A primavera, o calor da noite
A hera na santa,
O cheiro da erva
A água da fonte?
Se era! Se era...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Segredo do Beijo

Não sei se espero, e até que ponto
Também, esperas e tremes
Por boca e segredo
E hálito também espera
Lábio encontro e medo
Que em um canto
Beija e treme
E pronto.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fato

Envergonhado,
Quase que calado
Pra mim mesmo
Nego-te o que te prometi
Antes mesmo que eu nascesse:
O amor.
Promessa imbecil
De quem morre e não aprende
Que ao amor é um conjunto de inúmeras vidas atônitas
Perguntando “por que”.
Mil anos depois
Apareces em minha janela
Um ser incompleto:
Tu, e trazes mais perguntas que repostas.
Aponto pra o céu,
Uma eterna pergunta
Feita de azul e infinito.
Deuses farão templos,
Astronautas conquistarão planetas
Mas teu coração sem dono continua inexplorado
E eu, velho de tanto cotidiano,
Já estou cansado de ser Robson Crusoe.

Sandice

O vento vem e diz:
Não te apaixones...
Se não aquelas pequenas flores amarelas e fedidas
Viram rosas!
E não são as rosas
Que a negra poupançuda põe no cabelo
E vai lavar roupas cantarolando.
Paixão, paixão
Não precisas dela!
Só dos óculos rotineiros de sentar e escrever
Há paixão nisto também
Mas é uma paixão resoluta que nunca casou.
A que te falo
É perigosa
Gosta tanto de pregar peças
Quanto o ourives do metal
E vai talhando teu peito
De dor e desejo, de cores fluorescentes.
Então não te apaixones,
Vai com as crianças à escola,
Vai com as freiras à missa,
O amor não é prêmio nem prenda
É herança da insônia.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sesta

Dormir
A esta hora da tarde
É o mesmo que perguntar
Sobre a inutilidade do corpo
Visto que os sonhos
Não são mais eles mesmos
E adivinham os mais secretos desejos
Tudo desmancha-se na obrigatoriedade
Do transeunte nos postes,
Nos mastros dos navios,
Nos picos mais íngremes dos montes
No canto nunca revelado dos lábios
O canto úmido da boca.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Despedida

O sol anda em círculos, em olhos miudinhos
Duas janelas exatas
Onde a vida corre distante, distante
Que mais parece um menino brincando na praia
De juntar conchinhas
Ao nascente devagarinho...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Justo

Nada é mais recompensador que teu beijo, mais justo.
Puro artífice do que espera mais do que horas de um dia inteiro.
O dia não abraça, nem aperta, nem morde.
A dor da graça não tem sentido.
São olhos pequenos os olhos de noite
Porque as estrelas da noite se justificam nos teus olhos
São olhos comuns, pequenos como os meus fechados
Na hora do dia recompensador, fração do segundo teu beijo e mais justo.

Constatação

Sempre que olhar pra ti
De qualquer janela e de qualquer andar
Devo me perguntar, solenemente:
Que prazeres a superfície pode trazer?
Lá no fundo, depois das raízes e fósseis,
Diamantes.
E mais adiante, se cavarmos mais,
O magma encantado.
E depois de anos luz de profundidade – o mais denso de uma alma
Talvez uma semente se perguntando
O porquê de uma flor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Síncope

Sinto que necessito de mais palavras
Síntese do objeto e do desejo
Não vês os dias órfãos e presos de meus pensamentos?
Velha vida recém descoberta
tudo em órbita da ideia
que em agosto
nasce, e morre.
Às vezes a angústia vem
No trato com as palavras – todas inúteis
É preciso me convencer
Que um dia só é muito pouco
Pra rever toda a mansidão da rebeldia.

domingo, 22 de agosto de 2010

Alline

Sempre me convidas, tu com teu sorriso:
Vamos abraçar as estrelas!
Não há nada de possível nesse era
Que impeça a cavalgada selvagem de teu coração.

Se te falam: o que é a beleza?
Tu a descreves com a vida
Pequena, frágil,
Sossegada e breve
Desta pequena flor amarela.

sábado, 21 de agosto de 2010

Deste

Se não podemos falar de amor
Falemos desta cama ainda quente
Onde cabem tantos dias
De corpos rotineiros

Da última vez que te disse adeus
Eu ia contar de altos voos
Recém colhidos do céu
Mas fazer o quê,
Se não podemos falar de amor?

Pelos menos perdoe a melancolia
Dos beijos velados
E dos desejos sentidos
Perder e nascer estão próximos
São irmãos diante de todo dia amanhecido
Também não sabem falar de amor


Mas neste quarto,
Tudo me fala de abraço
E conta histórias de futuro e respeito
Diante deles me disperso
Distraído nas janelas que poderiam ser meus olhos
Calados
Falando de amor pro único ouvinte céu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nome

Não te chamo mais homem,
Nem pelo dado no batismo,
Onde teus pais te cobriram de bênçãos.
Talvez, Vento.
Decerto sabes o que ele faz com os moinhos –
Depois do giro selvagem das hélices
Sementes moídas e o convite ao trabalho
Incessante em mim mesmo.


Não te chamo, nem te digo: Ego!
Reconheço em todos os meus esforços
Um nome sagrado: Tempo.
Como num rio,
A correnteza dobra o capim motor
Dobra o dito, o prometido
E me torna capaz
De suportar com um sorriso
O que aos poucos
E sem pressa, não foi se cumprindo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Acemira

Fechar tudo que deixamos aberto,
E abandonar tudo que dói, ali ao longe.
Mas é na mente: nada se esconde!
E o que dói na gente, está sempre perto.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Fato

Tudo é tão pequeno nesta vida
Que cabem, todas as coisas,
Em um simples verso.
Como se a gente soletrasse bem baixinho,
Sorrindo da própria sorte:
“U-ni-ver-so”.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pergunta Acesa

Um dia a senhora Curiosidade baterá à tua porta e dirá:
O que vais fazer esta noite?
E abrirá o manto de possibilidades
Todas já um pouco descoloridas pela espera.
E na tua sala, um relicário, um santuário
Uma procissão de perguntas
Por onde andas e o que fazes


Velas acesas, orações suprimidas
Quase uníssonas em conformismo e saudade

Joelho postos, eu rezando
À estrela primeira de meus dias
Aquela que sempre me guiou sempre adiante
O ontem eu já expiei,
Devoto.
Prefiro o horizonte
Sei que vou ficando mais velho
Contudo se olhares bem dentro de meus olhos,
Verás brincando em um canto
Alheia a qualquer tipo de dor
A alma de um menino.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Entre Aberto

Estou no tempo onde as lembranças doem
As lembranças das lembranças estão perto do vazio
Se entreolham com cumplicidade
E dói violão, xampu sem sal, muitos travesseiros espalhados
Pela cama.
Macarrão com frango, café mal feito, tudo dói.
Até o espelho dói, minha identidade.

O tempo podia ter me engolido,
O coma passageiro dois dias apenas
E não iria me doer a mão espalmada,
Aberta em contrato
Convite aberto, dor aberta de ser o Apenas.

sábado, 7 de agosto de 2010

Papo Coração

Para Jana

Minha amiga de uma longa caminhada
Que começou agora
O sol vem sempre contigo
Tira o mofo de minhas entranhas

Na mesa posta,
Refeição farta de palavras
Eu bebo em teus olhos
Toda a quietude de dizer o que sou
Rimos dessa vida curta e besta
Enquanto pintamos outras paisagens
Lucidez

De noite quero te ouvir
Cantando
Porque é cantando
Que tu sorris como nenhum outro sol
Sorri.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Duo

O bom de ser dois
É realizar o conjunto
Como os dedos das mãos na hora de deitar,
Todos juntos
Como aqueles olhares displicentes
Ao pôr-do sol
Que em silêncio, concordam da beleza,
Juntos.
O bom de ser dois
É a solidão em dobro, saudade dupla
Sanadas com os lábios de reencontro
Juntos.
O bom de ser dois é sempre o vestígio
De risos cúmplices na casa sagrada
De forças motrizes que impelem
Braços, pernas, lua e pensamento
A ficarem inevitavelmente
Juntos.

Hexagrama

Essa sim
Difícil arte de manter-se inteiro.
É que de vez quando
Alguém, com um beijo
leva-te um pedaço.
à noite, eu choro a perda e
De manhã, na sombra obrigação,
Eu me reinvento, me refaço.

Em cima, vento
Embaixo, lago.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Cartografia

As estrelas apontam para onde?
Para o Norte do céu,
Lá se vão as almas bondosas que respeitam seus amantes
E se compadecem de seu amor sem explicação,
Aos pares,
E não parecem gêmeas
A vida é feita de opostos que se adoram até na respiração da fala casual
No mais escuro azul estão suas histórias
Sorteadas entre infortúnios de miríades de desencontros
No meio de maçãs apodrecidas pelo tempo,
Um medalhão escrito eu e tu.

No horizonte, diante do ar congelado pela manhã
Alguns decidem dizer não, e não e não
E surge no céu uma porta fechada uma janela aberta
Com estrelas apontando
Para o mais previsível dos lugares
Aquele abismo inexorável de peito eu e tu.

Vertigem

Meu amor, arruma a cama
por favor
E leva teu cheiro embora
Está na hora do de repente
Não quero morrer
Como quem morre de sede
E sim em uma tragédia
Cheia de fogos de artifício
Talvez me atire de uma ponte alta
Em cima da margarida
Que não devia ter nascido.

sábado, 31 de julho de 2010

Lago

As forças da natureza são assim,
Imprevisíveis.
Nascem da mudança
Da água inquieta
Golpes de ar
nas nuvens escuras de mistérios e mutação.

Mal cabem neste peito moleque
Que só agora há pouco
O descobri imensamente infinito.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Feliz

A boca não diz
Nem a mão escreve:
Mas sabe da vida
A pluma,
Tão leve!
Palpita feliz
Nos lábios da tarde.
E nos braços da brisa,
Adormece.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Leve


Convém que separados
Sejamos inteiros
Mesmo no vácuo da
Falta.

Permanecem em crescimento
Heras, grama e folhagens
De cores
Com as quais pintamos o mundo: verdes!
Ali, no canto da cama etérea,
quando no infinito estivemos
juntos.

Convém que sejamos
O outro de nós mesmos.
Renovados,
Mas velhos de amor
E, perfeitos.

sábado, 10 de julho de 2010

Cálcio


E sem platéia,
Vai se despedir de quem
O Amor, esse palhaço
Bem no meio
Do palco
Deixa de ser
personagem

Triste último ato
o ator
Nu de cortinas
Esquece o texto.

sábado, 3 de julho de 2010

Dois

O mais difícil – eu te digo
É construir a antiga intimidade
Aquela que tínhamos tu e eu, antes de nascermos.
E apenas sorri, olhando para o céu
Tentando lembrar de antigas nuvens e de asas.
Eu te pergunto o que aprendeste de novo
Ao longo desses milhares de anos.
Conversamos sobre amores e desamores
Sobre morrer centenas de vezes nos braços de alguém
Sobre misturar lágrimas com a água da chuva.

Somos feitos de passado.

Dançávamos devagar aquela música lenta de sensações
De descobertas dos outros e de nós mesmos
Enfim acreditando
Que construções novas sempre nascem dos escombros.
Cantávamos devagar uma canção milenar de amizade e de respeito
Que pode fazer dormir até o mais rígido insone
E amolecer o mais duro - meu e teu –
O mais duro e impenetrável peito.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ainda Constas

Sub
Instituição, relento.
Que falida, troca de leme
E segue,
Mesmo sem vento

E onde
Onda batia rebelde
Jaz suave,
Uma concha
De leve.

De
Baixo
Quase mudo
Um canto:
Tudo, eu aceito
Menos o pranto:
Há outro em teu leito.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amor Perdido

Ah, o Amor Perdido!
Tem o gosto estrangulante de pálpebras e chocolate
E aquele cheiro de tardes que nunca anoitecerão.
Congelado, com os dedos frustrados da busca
Descolorido de perplexidade e silêncio.

Se me perguntarem onde está meu Amor,
Direi: “está perdido!”
Mas nós somos, cada um, Universo.
Então ele vaga plenamente em mim,
Sem falar de esperanças ou desejos.

Ah, o Amor Perdido...
Vaga sim, apenas para sua contemplação,
Acima de qualquer vestígio de abandono e de medo.

Um Dia Tirarei Férias

Não devo me sentir culpado em fazer as coisas das quais gosto.
Devo seguir, às vezes sem compromisso,
Observando borboletas e desenhos na parede - talvez pássaros
Eles podem voar
E entendem de flores

E quem sabe um dia eu mesmo entenderei?

Assim não terei aquele sentimento:
“ah, poderia ter viajado nas férias”

O mais longe e necessário
Está onde nunca alcançarei
E isto é um fato.

Penso que dormir não é deixar de viver
Quando adoro estar entre os lençóis

Talvez deixar de viver seja refletir demais,
Procurar demais,
Chorar demais.

Talvez deixar de viver
Seja prolongar demais uma poesia,
Que poderia terminar com um simples ponto:
Pronto.